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Testemunho sobre o amigo morto Featured

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    O caso Levar    FOKUS, 01. 09. 2000 O caso Levar FOKUS, 01. 09. 2000 ilustração de Vladimir Šagadin
    O caso Levar                                                                                                                       FOKUS, 01. 09. 2000

    O nosso jornalista telefonou para Milan Levar pouco antes do seu assassínio. Este retrato excitante está escrito pela mão do seu amigo e bom conhecedor dos jogos obscuros no átrio croata de Haia.

                                                         
    Testemunho sobre o amigo morto

       

    A última conversa com Mićo





    Quando na segunda-feira, no dia 28 de Agosto, pelas 17 horas, recebi a chamada telefónica do meu colega e amigo do jornal Novi list, Robert Frank, que me perguntou se eu podia confirmar uma informação anónima, sobre o suicídio de Milan Levar, que ele tinha recebido na redacção do jornal, respondi-lhe que não tinha tempo para perder com estas parvoíces. Falei com Mićo por telefone no próprio dia, pelo meio-dia, e parecia-me muito bem disposto. Ele comentava a declaraçao do jornalista Mile Kosović, o ex-comandante da bateria do exêrcito croata em reserva de Gospić, o qual junto com o general Rahim Ademi foi o Pedro da acção Medački džep. Levar ficou muito contente pelo facto de Kosović “ter começado a falar, embora dissesse só a centava parte de verdade”. Comentava assim: “Quebram-se a relações entre aqueles que são responsáveis por essa vergonha croata. Kosović não falava directamente sobre os crimes que foram cometidos na guerra durante essa acção, mas é óbvio que existem razões porque começou a falar. Ficou com medo por si e começou a falar sobre o general Norac e sobre a línea dupla de comando do exêrcito croata de Šušak, e isso já é alguma coisa.” Pelo menos, Levar não está sozinho e único disponível para falar sobre estas coisas.

    Nessa ocasião, Mićo também me avisou da situação grave em que se encontrava a irmã de Zdenko Ropac, uma das testemunhas de Haia para o caso Gospić, e que, sob ameaças constantes “por causa da traição do irmão”, procurou o abrigo temporário numa clínica psiquiátrica. Não é preciso que escrevas sobre isso, mas é bom que saibas”, disse-me. Também apresentou as suas queixas em relação a um ex-político de Lika, que “sempre faz calculações – e sobre os crimes em Gospic está disponível de começar a falar só quando se sente ameaçado, mas, ficas a saber que ele também é responsável pelas determinadas atrocidades que ocorreram em Lika.

    Mencionou que nos íamos encontrar em breve e deu-me instruções onde podia procurar certos documentos que se referem à acção de Medački džep. Disse-me ainda que me tornaria a ligar naquela tarde, porque na altura tinha algumas coisas para fazer na oficina.


    Pensava que era invencível

    Mas, como Mićo Levar foi uma pessoa com afinidades para o humor negro, afinal decidi telefonar-lhe e perguntar se era mesmo verdade que se tinha suicidado. Ninguém atendia o telefone em sua casa, nem os vários telemovéis que tinha. Por isso fiquei ligeiramente confuso, mas ocorreu-me que era possível que tivesse decidido de repente viajar com a família, com a esposa Vesna e o filho Leon, como já tinha acontecido várias vezes. Talvez fossem até Karlobag para tomar banho.

    Telefonei então para um amigo comúm, ex-oficial alto do quartel-general do Exêrcito Croata, e na brincadeira fez-lhe pergunta se por acaso ele tinha ouvido os rumores de que Levar se suicidou. Fiquei pasmado quando ouvi a sua resposta: “Não se suicidou, mas está morto. Informou-me sobre isso há um bocado a sua esposa Vesna. Foi vítima duma explosão na sua oficina...”

    Assombrado, transmiti esta informação a Franko em Rijeka. Tudo estava claro para mim, não duvidei que ficou morto num atentado, embora também eu recebesse em breve as informações que ele morreu por causa de manuseação descuidada com uma bilha de gás.

    Depois, telefonou-me em pânico um amigo de Levar de guerra, oficial num dos serviços secretos croatas. “Mataram-no! Há poucos dias eu tinha-lhe dito que estavam a preparar seriamente a sua eliminação e que deixasse de se mostrar no público. Foi longe demais. Pensava que era invencível. Não me obedeceu!”

    O agente secreto repetia como o disco estragado que tinha dito a Mićo para não se meter em águas de bacalhau. Apenas consegui interromper a conversa de uma maneira amável.


    Testemunha de Haia

    Levar vivia com a ideia de o matariam para o fazer parar. Mas como, e porque podia acontecer que o matassem depois de 3 de Janeiro, a data que ele esperou com a alegria de uma criança, dizendo que o estado do direito bateu à porta da Croácia e que já não precisávamos do Tribunal de Haia. “Agora poderemos processar os nossos criminosos no nosso próprio país, democrático e do direito...”, disse-me muito alegre durante o nosso breve encontro quando voltou da inauguração do presidente, a que assistiu como o grande amigo de Mesić.

    Desde 1992 até hoje, Milan Levar deu umas centenas entrevistas para os meios de comunicação, nacionais e estrangeiros, e em 1997 falou também no Tribunal de Haia sobre as atrocidades que ocorreram em Gospic no ano 1991. Várias vezes tentaram matá-lo em atentado, dispararam em direcção de casa dos seus pais onde vive a sua mãe Katica, e contra o pátio onde perdeu a vida agora. Até tentaram envenená-lo, de modo que deixou de beber o café com açúcar. No bolso sempre levava adoçante artificial.

    Antes da guerra participou em quase todas pancadarias em Gospić. Foi expulso da Academia de aviação de Mostar porque na idade de 15 anos atacou um capitão quando este ofendeu o seu orgulho nacional croata.

    Da guerra, as pessoas lembram-se dele como um guerreiro violento. Lutou na primera fronte da defesa de Gospić, junto com uns trinta homens que já no verão de 1991, como o pelotão de intervenção de Pajo Šimić, mantiveram as primeiras posições de Lički Osik.

    Confrontava muitas vezes a morte, e por isso o seu humor negro foi dificilmente entendido pelas pessoas com o estômago sensível. Rindo-se, contou-me sobre os coveiros que nos seus ombros transportaram os corpos semipodres das vítimas dos crimes de guerra, e “os vermes, de tamanho daqueles aperitivos chamados kroki-kroket, por qual receberam o nome de krokici, rastejavam pelas costas dos coveiros.”

    Contou-me que saiu do exêrcito quando recebeu a ordem autenticada para matar os civís. “Não fui à guerra para matar as velhas, como estes que em nome do seu croatismo cobraram em sangue e dinheiro”, foi a frase que ele converteu num dito.


    Mićo e os resgatadores do passado de Udba

    Não bebeu álcool já há quinze anos, desde a morte do seu pai. Só café e água mineral. Podia-se falar com ele horas e horas, e ele bebia só estas bebidas. Os que não gostavam dele, também isso consideravam um sinal de que Mićo não estava normal. Um ex-político de HDZ queria-me este inverno convencer, bebendo já a sua décima cerveja, que Milan Levar não é um homem verdadeiro, porque “os homens verdadeiros não bebem água mineral” e “quem pode aguentar isto, com certeza está mal de saúde, não só fisicamente, mas também psiquicamente.”

    Quando no dia do seu assassínio, na esplanada do hotel Dubrovnik em Zagreb, conversava sobre o caso Medački džep com duas pessoas de Lika, um agente secreto e um ex-político alto de HDZ, os dois tentaram a convencer-me que Milan tinha problemas com a saúde psíquica. “Porque não para de falar uma vez por todas? O mundo basea-se nos acordos. Porque não aceita o que lhe oferecem? Já há muito tempo podia viver bem, se tivesse sido inteligente. O que pensa ele, que é Jesus?! Nada se provará só com as palavras dele. É preciso ter os papéis! Há muitos ossos na região de Lika, já do tempo dos turcos. Sobre alguns túmulos comuns já crescem florestas!”

    Já há algum tempo percebi que os seus aliados começaram a virar-lhe as costas, mas tudo aquilo que diziam sobre ele os seus inimigos constantes, recebia como si alguém me dissesse bom dia. Não fiquei muito supreendido com as palavras destas pessoas de Lika, e transmiti-lhe uma parte desta conversa. Não ficou muito preocupado.

    Que vão com o diabo, foram as suas palavras, e concluiu que “todos eles querem resgatar o seu passado mal em Udba, e não são muito melhores daqueles que cometiam e ordenavam os crimes. Falam sobre os crimes só por causa do aproveitamento pessoal ou luta pessoal. Coitada da Croácia se outra vez tivermos tais pessoas no governo”.


    Também os amigos lhe viraram as costas

    Várias vezes, quando ficava zangado com alguém dos seus aliados, confiava-me quais pessoas da alta posição do estado e exêrcito tinham dado testemunho perante os investigadores de Haia – “secretamente, para salvar a própria pele”. E acrescentava: “Eu faço tudo publicamente e não faço comércio com as desgraças dos outros como vários defensores falsos dos direitos do homem”. Frequentemente, também os amigos lhe viravam as costas, não podendo suportar a sua insistência e não-comprometimento.

    Também o Tribunal de Haia não ficou contente com as suas reacções, como as pessoas públicas que mantinham as relações estreitas com a Procuradoria de Haia. Depois de ele ter testemunhado em Haia, junto com dois defensores de Gospic, Zdenko Ropac e Zdenko Bando, em 1997, como desta vez não conseguiram chegar ao acordo sobre a posição de testemunhas protegidas de Haia, deram uma conferência para os jornalistas e criticaram o Tribunal por causa de ineficiência.

    Não obstante, Ropac, Bando e o padrinho de Levar, o inspector da polícia de Gospic, Tomislav Orešković, depois viajaram para Alemanha com algumas garantias do Tribunal de Haia, e Levar ficou a falar em Gospic. Assim o conheci no início do ano passado, quando me telefonou oferecendo-me testemunhas novas e contos sobre os crimes de guerra em Lika, porque estava com impressão de que as coisas com Haia e Gospic não se moviam para lado nenhum.

    À base de alguns textos que publiquei no ano passado, o ex-advogado do estado, Berislav Živković, começou o inquérito. Quando na primavera passada saiu do seu cargo, Zivković destacava com orgulho mesmo o facto de que sob o seu cargo “os advogados do estado reagiram também aos artigos nos jornais”. Porém, nem no âmbito deste inquérito, nem depois, em Abril, quando os investigadores de Haia começaram a escavar em redor de Gospić, ninguém dos advogados do estado, nem da polícia, chamou Milan Levar para conversar com ele e ouvir o que ele sabia.

    Os adversários tinham medo dele. Tinham medo da sua força física, agilidade e determinação. Não levava a pistola para a própria defesa, só a faca dobradiça. “Tem direito de disparar contra mim só uma vez. Se falharem, já sabem o que os espera”, disse-me uma vez, sem pestanejar. Tendo um índole bastante brusco, sabia muito bem que devia evitar “as brigas casuais na rua ou nos cafés”, por isso não se deixava meter nas situações para matar alguém, ou ser morto por alguém, nos incidentes que poderiam ser vistos como os de café.

    Contudo, fizeram-no parar

    Chamou-me no verão passado, gritando que há pouco recebeu uma bofetada de uma mulher na rua. Acalmou-se e continuou: “Acabei de chegar a casa de mãe, quando de um veículo de matrícula de Zagreb saiu uma mulher pequena e perguntou-me se eu era Milan Levar. Disse-lhe que sim. E ela, como uma fúria, deu-me uma bofetada, gritando que era a esposa de Tihomir Orešković, e que eu destrui a sua família com as minhas conversas. Não podia acreditar que Tiho era um tal cobarde para açular a sua mulher contra mim. Telefonei para ti para não ir à procura dele aos cafés, e para não fazer alguma asneira que me poderia custar tudo o que já tenho feito.”

    Muitos consideram Milan Levar o traidor, e estão muito satisfeitos por causa da sua morte. “Se eu sou traidor, e os ex-jugoslavos, comunistas e sérvios de Gospic, que mudaram os nomes e apelidos, são maiores croatas do que eu, tudo bem. Só que eu nunca desistirá da intenção de tirar a vergonha do meu povo croata e de acusar dos crimes as pessoas concretas da Croácia, assim como os membros dos serviços secretos estrangeiros que são responsáveis pela morte de centenas dos meus compatriotas sérvios e croatas. Se eu sou traidor porque não quero que se diga, nos seguintes 50 anos, que o meu povo fez um genocídio, então sou um traidor! Na minha intenção de revelar a verdade inteira sobre o que aqui se passou, não me impedirão nem Haia, nem Washington, nem Moscovo, e muito menos uns cobardes e imbecis daqui, cuja inteligência está ao nível do temperatura do quarto!”

    Alguns consideravam que Levar foi o agente secreto treinado, e nisso viram os fundamentos e motivos de tudo que ele fazia. Mas ele não não se preocupava com estas acusações. Só acrescentava: “Que tipo do agente secreto sou eu quando detesto os segredos. Eu proibiria pela lei todos os segredos.”

    Se em Gospić, naquela segunda feira, tivesse assassinado qualquer outra pessoa, Milan Levar já teria feito o esforço para que o público soubesse como foi assassinado, quem o assassinou, e quem o mandou assassinar.
    Mićo, ainda estou à espera da tua chamada.

    Como a polícia guardou Levar

    Durante as manifestações anti-haia em Gospić, Dubravko Novak, o novo chefe da Direcção de polícia licko-senjska, mandou alguns polícias ao andar de Levar para eles protegerem a sua família, enquanto a gentalha na rua estava a manifestar-se a favor de ustase. Milan queria sair e falar com aqueles que lhe chamavam traidor, mas os polícias pediram-lhe para não fazer isso, porque eles ficariam sem emprego. Neste momento telefonou o seu filho Leon e pediu para “mamã ou papá irem buscá-lo à escola. As aulas acabaram, e ele sozinho não podia chegar a casa por causa de multidão. Vesna Levar pegou nas chaves de carro, mas as polícias impediram-lhe de sair, dizendo que tinham a ordem definitiva para não deixarem ninguém sair do andar, e que eles estavam lá para tomar conta da segurança de Milan e Vesna Levar. Surpreendida, a mulher perguntou-lhes se tinham consciência de que estavam a falar, porque o seu filho não se sentia seguro, mas os polícias repetiam com insistência que ninguém devia sair do andar, nem eles próprios. Então Milan Levar ficou furioso e no seu estilo demostrou como usar os meios de comunicação de uma maneira útil. Pediu aos jornalistas da televisão do estado esloveno para filmarem a sua conversa com o chefe da polícia Novak, a quem disse todos os palavrões ameaçando-o que ia bater nos seus polícias se não deixassem a sua esposa ir buscar o filho deles.

    Željko Peratović


    FOKUS, 14. 08. 2000

    O retrato em grupo com o cadáver

    Haia tem as fotografias de Bobetko e de Krpina em Medački džep

    Com grande vozearia que levantou o inquérito de Haia contra o general Petar Stipetić, quando se mencionou a responsabilidade dos pressupostos crimes de guerra na acção Medački džep, em 1993, passou quase despercebida a informação do jornal Slobodna Dalmacija que as fotografias do general Janko Bobetko e brigadeiro Drago Krpina se encontravam em Haia. Parece que numa fotografia estão eles os dois ao lado de uns dez cadáveres dos civis e revoltados sérvios em Medački džep. O jornal Slobodna calcula que esta fotografia é suficiente para começar o inquérito em Haia.

    Drago Krpina, que na altura crítica foi o chefe do serviço informativo (IPD) do Ministério da Defesa, e hoje deputado no Parlamento de HDZ, não quis comentar a informação de Slobodna. Gritou com os jornalistas, afirmando que se tratava de estupidezes. O semanário Fokus não conseguiu entrar em contacto nem com o general Bobetko.
    Milan Levar, conhecido publicamente como a testemunha de Haia para o caso Gospic, confirmou para o Fokus a existênica da fotografia mencionada.

    - Os investigadores de Haia também nos mostraram outras fotografias que eram prova de que após a acção militar Medacki dzep foi feita “a limpeza do terreno” de casas e de pessoas.
    • Tem conhecimento como a fotografia com Bobetko e Krpina foi tirada?
    - Depois de Unprofor ter feito protesto no governo croata contra os crimes cometidos, saiu para o terreno uma comissão do Parlamento que coordenava Luka Bebić, naquela altura o presidente do Departamento da política interna e segurança nacional. Nesta comissão encontrava-se também o general Bobetko, brigadeiro Krpina, Perica Jurić e os outros. Não sei quem tirou a fotografia deles junto com os cadáveres, mas o facto é que estas fotografias existem. Tenho conhecimento firme que as fotografias parecidas chegaram na altura às mãos do presidente do Parlamento Manolić e de Mesić, que hoje é o presidente.
    • O que fez a comissão de Bebić?
    - Foi óbvio que o crime não se podia esconder, por isso a responsabilidade foi transladada aos outros. Em vez de Mirko Norac, como os bodes expiatórios serviram Mile Kosović, quem Šušak rapidamente nomeou comandante de 118ª brigada, e logo demitiu-o, “por suspeitas de se ter violado a Convenção de Genebra em Medački džep”, e o general Rahim Ademi, que também foi demitido.
    • Quem na realidade foi responsável por Medački džep?
    - Não é comigo de avaliar isso. Posso só dizer que sobre os crimes em Medački džep foram informadas todas as estruturas do estado na altura, e que disso também existem as provas. Quem será acusado, e quem será só a testemunha – decidirá o Tribunal de Haia.

    Željko Peratović




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